História de Itapeva

 

INTRODUÇÃO

Na tentativa de impedir que a máquina Estadual destrua o magnífico recanto descoberto em janeiro de 1915 por meu avô, Georg Michael Black, líder estudantil e comunitário por excelência, descreverei a história daquele "Jardim do Éden", o qual na atualidade se denomina Parque Estadual de Itapeva, criado por leis pertinentes.

 

INICIO

 

Em 26 de Dezembro de 1915 o Prof. Georg M.Black, líder do Grupo de Escoteiros da Sogipa (atualmente Grupo Georg Black, o qual completou 100 anos de atividades ininterruptas), realizou uma excursão, praticamente toda a pé, de Taquara com destino a Blumenau, passando por São Francisco, Itaimbezinho, Torres, Araranguá, Florianópolis, onde participaria da fundação de um novo grupo de escoteiros.

 

Na passagem por Torres, o intendente daquela vila de pescadores o convidou para abrir uma hospedagem para veranistas, ainda incipiente, com o objetivo de atraí-los. Nestas andanças pela região acabou descobrindo Itapeva em um passeio pelas furnas do litoral Torrense.

 

Visitando o local, ficou admirado com a beleza suprema da área e comentou com seu filh Karl "aqui criarei uma hospedagem para que todos os nosso amigos e conhecidos possam usufruir desta raridade em nosso litoral". Adquiriu  mais tarde 10 hectares na área que seria mais propícia a instalação de uma . Isto ocorreu no ano de 1926. No verão de 1928  iniciou-se o serviço de hotelaria que atraiu centenas de pessoas de diversas nacionalidades, como alemães, ingleses, noruegueses, franceses, americanos, italianos, tchecos, argentinos, australianos e naturalmente brasileiros.

 

O serviço oferecido era esplendido, com toda sorte de distrações, desde a ginástica na praia, volibol, ring-tenis (seria o "newcomb" com uma argola de borracha, criada nas recreações navais, onde uma bola voaria com certeza para o alto-mar), passeios a cavalo e a pé pelas densas matas ainda intocáveis, apreciando a exuberante fauna e flora, principalmente orquídeas e bromélias, nativas daquele ambiente úmido e subtropical. A noite, os hóspedes de deliciavam com o bolão de mesa, jogado com um taco, nas mesmas regras do bolão tradicional, alem de teatro e musicas acompanhadas de acordeom e violão. Jogos de cartas e de mímicas não faltavam, onde os hospedes eram os atores e assistentes.

 

O espírito comunitário, solidário e social era tão intenso que nas chegadas e despedias dos hóspedes era comum  corais improvisados de boas-vindas e de despedida, onde as lagrimas de alegrias e saudades  umedeciam a areia alva e reverberante das dunas, que eram um atrativo a parte e separavam a praia do hotel numa distância de 600m.

 

A viagem para Itapeva durava três dias. As saídas eram do cais de Porto Alegre, com o navio "Montenegro" que tinha rodas laterais de impulsão e a caldeira de carvão. Iam até a cidade de Palmares, via lagoa dos Patos e de lá até a cidade de Conceição do Arroio, hoje denominada de Osório. Essa viagem  era feita por via férrea de bitola super estreita, movida por locomotiva a vapor. Ela ia tão devagar que quando enfrentava o famoso "nordestão"  era possível descer do trem em andamento, colher flores no campo e oferecer a bem amada a seu lado.  De Osório, a viagem seguia por via lacustre até o fim da lagoa Itapeva. Chegava-se então ao Porto Estácio, a 8km de Torres e a 3km de Itapeva. Neste último trecho, usava-se carreta de bois em direção a praia, passando por Itapeva até a chegada a Torres. Alguns hóspedes preferiam ir direto a Itapeva por trilhas entre matas verdejantes, exóticas e densas. Mais tarde, ônibus com tração especial foram utilizados para transportar os hóspedes que iam a Torres e Itapeva.

 

Somente durante a década de 30/40, foram criadas as linhas regulares de ônibus, via Osório, Tramandaí, até Torres, tendo na época se destacado as empresas, Jaeger, Ibanês, Atlântico, Santos Dumont e por fim a Unesul. Muito comum, durante o trajeto de Tramandaí a Torres, acontecerem imprevistos, como, por exemplo, o atolamento nas areias finas de nosso litoral ou serem abalroados por ondas fortíssimas, provindas das inúmeras ressacas que aconteciam naquela época, sendo hoje muito raras. De ônibus a viagem iniciava-se às 6hrs da manhã e, quando tudo ocorria bem, chegava-se ao destino por volta das 6hrs da tarde. Era comum os hóspedes viajantes terem que passar a noite em “Capão da Canoa” na época conhecido com "Capão das Pulgas", em razão da precariedade dos hotéis.

 

Um dos  fatos emocionantes da viagem eram os esperados sonhos e pastéis de Santo Antonio da Patrulha e o "ensurdecedor" silêncio sentido  pelos viajantes quando o ônibus iniciava o seu trajeto pela beira do mar. Este usava como faixa a parte úmida da areia, junto as ondas e esborrifando água por toda a carroceria e janelas que ficavam abertas devido ao calor do verão. Este silencio sepulcral durava cerca de 10 a 20 minutos até que todos se acostumassem a ver somente areia do lado esquerdo, praia no centro e o mar bravio e arrebatador do lado direito de quem ia em direção às praias da época. Destacavam-se, Santa Terezinha, Capão da Canoa, Arroio do Sal, Arroio Teixeira, Rondinha, Estrela do Mar, Itapeva e finalmente Torres.

 

Em 1926, existia no local de Itapeva, onde hoje ainda se localiza o hotel, um pequeno colégio, com o intuito de alfabetizar a garotada, de vez que a maioria dos adultos eram analfabetos. Nesta propriedade adquirida da viúva Hartz, Georg Black construiu uma cozinha e três quartos anexos, alem de dois chalés, para um total de 22 camas em 12 quartos. Em 1940, mercê de uma herança, destruiu a antiga cozinha e construiu de alvenaria uma estrutura com cozinha, dois banheiros, chuveiros, um quarto de banho, três quartos com 6 camas, uma sala de jantar, uma adega de 40 mts. quadrados, e uma despensa. Alem disso, instalou uma caixa d’água de 2.000 l e uma rede elétrica de 30 volts alimentada por 5 baterias de 6 volts cada, um gerador a querosene de um pistão para carregá-las e uma bomba manual, acionada por um pequeno motor elétrico de 30 volts (ainda hoje de posse e funcionando).

 

A água vinha de uma vertente 30 m abaixo do nível do hotel e a 130 m de distancia tendo sido escavada e construída uma cacimba de pedras que comportava cerca de 5.000 litros d água, sendo que na época de verão era acionada duas vezes por dia num total de 4000 l. d'água. Tinha ainda os tonéis e cisternas que aparavam a água da chuva para os serviços de limpeza e conservação, através de calhas de zinco chumbado, resistentes a ferrugem e intempéries. Um dos condutores d'água encontra-se ainda em funcionamento, mas a calha atual é de alumínio. A vertente ainda se encontra lá, com  uma construção de tijolos, protegendo-a das chuvas e das folhas.

Nos anos 30/40, a água era bombeada por uma pequena máquina adutora manual, sendo que os funcionários tinham de acioná-la todos os dias. Cada um que a acionava ficava por meia hora bombeando lentamente a água morro acima para cisternas de zinco de 5.000 litros, mas era quase impossível recompô-la totalmente em face do grande desgaste físico. A bomba pode ser vista em uma feliz foto tirada em 1955, quando era utilizada para encher pequena cisterna suspensa em um chuveiro de madeira, onde os hóspedes tomavam banho após a vinda do mar.

Esta bomba foi doada ao grupo de escoteiros Georg Black, mas o destino da mesma, hoje em dia, não é conhecido.

Jorge Black, filho mais velho de Georg, doou nos anos 60 para a SOGIPA, através de grupo de escoteiros 1,5 ha,  mas o advogado que realizava a tarefa jurídica desta doação, faleceu durante o transcurso do processo e a SOGIPA esmoreceu, não tendo mais dado continuação a esta preciosa generosidade.

Nos anos 60, Carlos Black adquiriu a quarta parte da herança de sua irmã Phylomena Black Eckert e Jorge adquiriu de Amália Black, viúva de João Black a outra quarta parte, ficando a propriedade divida, sendo que Carlos ainda adquiriu mais 1,5 ha de seu irmão Jorge para que o Hotel não ficasse dividido.

 

DA ROTINA DIÁRIA DA PENSÃO

 

Impiedosamente, as 7h30 da manhã era tocada uma sineta manual de grande capacidade sonora, a fim de anunciar que o café da manhã estava pronto e servido. A funcionária que fazia esta animação matinal também anunciava da mesma forma o almoço as 12hs. e o jantar as 7hs. da noite. Normalmente, quando a manhã ia se arrastando, quase todos os hóspedes vestiam suas roupas e saídas de banho e se dirigiam a pé para o mar, o qual ficava a cerca de 600 mts. do hotel, tendo que atravessar uma grande extensão de dunas. As crianças já iam se divertindo nas areias ainda frescas da noite, realizando todo o tipo de brincadeira aceitável, mas muitas vezes saíam do sério e começava uma verdadeira guerra de bolinhos de areia.  Estas brincadeiras muitas vezes se transformavam em choro por causa da areia nos olhos, mas no mar todos se lavavam  e as brincadeiras continuavam. Uma delas era cortar uma tábua de mais ou menos meio a um metro, pinta-la e denominá-la com algum fenômeno natural como TUFÃO, RAIO, VENTANIA  e assim por diante. Com estas tábuas, a criançada e os adolescentes iam pegar “jacaré”, que nada mais é do que o surfe tão praticado hoje em dia. Como estas tábuas não tinha grande flutuabilidade o pessoal se deitava de bruços sobre a mesma e curtia as ondas. Os mais capazes e corajosos nadavam mais ao fundo para pegar ondas mais fortes. 

Estas tábuas tambem eram usadas como "trenós" nas dunas, principalmente quando as mesmas estavam molhadas pelas chuvas. Era um divertimento e tanto, mas cansava muito, pois a cada descida era necessário retornar duna acima, numa distancia de 20 a 50 metros e numa inclinação de cerca de 45 a 50 graus.

Normalmente os adultos jogavam cricket, vôlei, ou faziam ginástica e passeavam a pé até as furnas de Torres que ficavam a 4 km. de distância, sendo portanto uma caminhada de ida e volta num total de 8 km.

Enterrar-se na areia era outro divertimento assim como construir castelos ou moldar figuras com a areia molhada.

Raros eram aqueles que se dedicavam a pesca, mas sempre havia alguém afim desta atividade recreativa.

Na praia existia uma cabana construída todos os anos, com dois longos bancos, afim dos hóspedes se protegerem do sol e descansarem. Outra atividade interessante era coletar conchas das mais variadas espécies e, alguns hóspedes mais hábeis, confeccionavam pulseiras e colares.

Perto do  meio-dia, quando todos voltavam da praia, começava um verdadeiro martírio para a crianças. A areia das dunas ficava extremamente quente com o sol a pino, e os pés queimavam e ardiam e muitos choravam. O jeito era correr para logo alcançar a grama e ter um alívio. Logo após a areia havia um chuveiro campeiro, com uma lata perfurava em baixo, a fim de tornar a água mais borrifada, e esta lata-depósito era enchida manualmente por uma antiga bomba, a qual se pode ver parcialmente numa das fotos. O “box”, onde ficava o chuveiro era de madeira, aberto na parte superior onde havia uma estrutura que sustentava o depósito de água. Esta água vinha de um poço de treze metros de fundura, o qual foi totalmente atulhado com lixo pelos campistas quando a área foi desapropriada e construído o camping.

O cardápio do hotel era sempre variado, sendo que aos domingos havia uma galinhada com maçã feita no forno externo a lenha, no qual também se faziam os pães.

Aos Domingos a tarde também havia um café com sonhos maravilhosos ou cuca de banana e maçã tipo “apfelstrudel”.

Sob a cozinha havia um enorme porão, onde eram colocadas as bebidas, as quais ficavam frescas e ótimas de tomar.

Também era armazenada a manteiga, a qual ficava mergulhada dentro de panelas de cerâmica. Nos últimos anos, como não havia luz elétrica de alta voltagem, foi adquirida uma geladeira de nove portas, sendo que o gelo era trazido a cavalo de Torres de três em três dias.

O fogão era de lenha com cinco bocas, mais uma caldeira d’água lateral, a qual, no entanto não dava conta de demanda de água quente para a comida e a lavagem das louças.

Haviam sempre cinco funcionários femininos e um masculino, sendo uma camareira, uma garçonete, uma ajudante de cozinha, uma lavadeira e uma  passadeira de roupa e um peão para todos os trabalhos mais árduos, como cortar lenha todos os dias para o fogão ou buscar carne num açougue que ficava a cinco km de distância próximo a lagoa Itapeva.

 Também havia um funcionário agregado eventualmente o qual tinha a responsabilidade de buscar e levar os hóspedes de carreta de bois para a praia, onde passavam os ônibus de passageiros que iam ou vinham de Porto Alegre a Torres.

Interessante de ressaltar uma época em que as moscas tomaram conta de Itapeva e naturalmente do hotel. Na hora das refeições, era praticamente impossível comer descançado, pois as mesmas entravam pelas janelas em grande quantidade, toda originárias do lixão de Torres, o qual foi durante anos instalado a meio caminho da praia para Torres, junto as dunas da beira-mar.

O impedioso vento nordeste trazia as mesmas com grande facilidade. O prof. Black, (gerente do hotel emeu pai) juntou de certa feita uns dez sacos de plásticos com moscas e levou para o prefeito de Torres, o qual vendo aquele "fenômeno" mandou que diariamente uma patrola enterrasse o lixo, mas pouco adiantou. Somente com a mudança do local para o interior do município de Torres foi o problema resolvido, mas isto levou anos até a sua concretização.

 

 

DO PROCESSO DE DESAPROPRIAÇÃO E SUA LONGA E TENEBROSA HISTÓRIA.

 

Lamentavelmente, em 29/11/1971 o Estado publicou o Decreto nº 21540/71, declarando cerca de 1.235ha área de interesse público, para fins de desapropriação e criado o Parque Turístico da Guarita, tendo as terras da família Black sido incluídas.

 

No ano de 1972 o Estado ingressou com ação de desapropriação dos terrenos, processo nº 2427/342. A sentença somente foi proferida em dezembro /1986, sendo julgados os recursos de apelação no ano de 1990.

 

Em 1981 o Estado abriu mão de toda a área, ficando somente com 230ha na Guarita, mas em 1983, através de outro decreto, adicionou a área de 45ha do camping. Estes decretos anulariam juridicamente todo o processo, mas a nossa defesa nada fez.

 

Posteriormente, em 26/11/1992, foi proposta a execução da sentença proferida na ação de desapropriação, processo de execução nº 072/1.03.0004827-9, distribuído em 26/11/1992.  Após longa tramitação, com vários incidentes, foi finalmente determinada a expedição do precatório.

 

O precatório da família Black  foi apresentado em 20/07/2010 e incluído no orçamento de 2012 e, até hoje não pago.

 

Apesar de o advogado contratado ter (através de uma firma especializada em agrimenções e avaliações de terras denominadas EXPLANID), preparado uma ótima defesa para futuros aviltamentos em termos de valorização das terras, todo o trabalho de dois meses de medidas foi incompreensivelmente considerado nulo, com argumentações jurídicas infundadas e inapropriadas.

 

Por  razão da não aceitação dos cálculos apresentados, os valores dos imóveis de todos os proprietários ficaram em 1990 cerca de 90% abaixo daqueles calculados pela firma EXPLANID. 

 

Além de termos perdido as terras que tanto amávamos, o prejuízo financeiro é incalculável, sendo que o Estado não tem previsão de data para pagamento.

 

Interessante ressaltar durante o transcurso do processo, o qual  possuía mais de 70 cadernos com uma altura total de quase 2 metros, um episódio nos chamou a atenção. O juiz Humberto Villamarin decretou nos anos 80 a devolução das terras (em razão dos decretos anteriormente mencionados), pois o processo possuía tantos erros e falhas, que o mesmo descreveu "....com a sequencia desta incompreensível e falha estrutura processual, os réus jamais serão indenizados, sendo que muitos morrerão e nem seus netos terão a visão do fim desta anarquia processual". Por este parecer, s.m.j., foi destituído da direção do processo e transferido para outra comarca no interior do Estado.

 

As suas palavras foram proféticas pois, no transcurso econômico em que vivemos, nem os nossos bisnetos terão o prazer de serem indenizados.

 

Em 15/04/2015 a família, cansada e desiludida com o destino daquele maravilhoso  local, entregou as chaves e abandonou sua centenária residência, doando para a comunidade uma infinidade de materiais e utensílios da hotelaria, os quais não teria mais utilidade a não ser que aceitassem a idéia lançada em 2009 do projeto de um museu histórico. A família foi vergonhosamente acusada de causadora da destruição e má gestão da terra (!?!?), impedimento de acesso a funcionários, obstrução da administração do parque, construção de moradia após a implantação do mesmo (um absurdo completo!) e toda sorte de argumentos infundados e muito bem defendidos desta inverídica e burocrática Reintegração de Posse Estadual.

 

A CRIAÇÃO DO CAMPING DE ITAPEVA PELA CRTUR (CIA. RIOGRANDENSE DE TURISMO)

 

Em 1976 o Estado, após ter efetuado o depósito judicial pertinente para contemplar a lei da desapropriação, iniciou-se a construção do famigerado camping, destruindo muito da paisagem original tão bem preservada por seus proprietários . Os valores depositados eram tão insuficientes e defasados que não cobriam um passagem de onibus de Porto Alegre a Torres!!! Em 1978 foi o mesmo inaugurado, tendo se verificado uma verdadeira invasão de barracas, trailers, motor home e caminhões, que se instalavam em qualquer canto sem ordem e nenhum cuidado com a natureza. Em algumas fotos do nosso arquivo, pode-se perceber a desordenação da ocupação da área.

 

O pessoal que dirigia e administrava o camping não possuiam nenhuma formação ou conhecimento de como deveriam ser distribuídos e instalados os equipamentos. Automóveis circulavam livremente entre as barracas, tendo havido pequenos acidentes, como atropelamento e derrubada de postes de luz onde, por azar, um pai e seus filho foram eletrocutado mas salvos por um médico que estava acampado.

 

As residências não eram respeitadas e, muitas vezes haviam pessoas acampadas na porta das casas e junto as janelas e paredes, amarrando e fixando barracas e varais de roupas nas mesmas.

 

Os campistas, deslumbrados com a riqueza das bromélias e orquídeas existentes nas matas, cortavam e levavam de lembranças, ou enfeitavam suas "moradias" provisórias. O camping foi apelidado de "camping selvagem" e, por esta razão encaminhamos diversos processos a Procuradoria do Estado relatando os acontecimentos com farta documentação descritiva e fotográfica, mas como era de ser esperar, nada aconteceu.

 

Diante de tanta irresponsabilidade gerencial com os ecosistemas, os proprietários que se encontravam com seus imóveis dentro da área do camping, criaram em 1990 uma sociedade denominada de Sociedade Amigos do Morro de Itapeva (SAMI), gerenciada pela família Black, mas por serem todos proprietários da área desapropriada, não conseguiu o seu registro. O objetivo era gerenciar e administrar de maneira correta toda aquela belíssima área. 

 

Numa época inicial do camping, o administrador local era exímio atirador e, por esta razão, sumiram praticamente todos os pássaros da região. O mesmo não respeitava nada, e no inverno, quando não havia campistas, realizava constantes passarinhadas...

 

No governo Britto, a CRTUR foi extinta e o camping ficou acéfalo, tendo o Estado nesta ocasião cedido para a prefeitura de Torres administrá-lo.

 

Em 2002, com a nova criação do Parque Estadual da Itapeva pelo governo Olívio Dutra, a administração voltou para a SEMA (Secretaria de Meio-Ambiente) e o camping foi extinto e destruído em 2010 pela atual  gestão.

 

Vale ressaltar que, nos últimos anos, diversas árvores nativas e exóticas foram derrubadas e sua lenha vendida para plantadores de fumo da região utilizarem em suas "estufas secadoras" segundo relato de moradores da região. Ainda hoje podemos observar parte destas lenhas empilhadas junto ao pequeno e estreito caminho que levava a praia. Da mesma forma, caminhões-caçamba eram vistos levando areia fina das dunas para locais desconhecidos. Segundo a comunidade local, a areia era vendida para construções da região...

 

Toneladas de pedras foram depositadas junto a estreita estrada que ligava a parte superior com a inferior do camping.O objetivo era conter as águas intensas das chuvas que destruíam o caminho composto basicamente de areia das dunas e saibro, porem aniquilou com uma pequena lagoinha formada por vertentes naturais. Nesta lagoinha criavam-se naturalmente os famosos "sapinhos de barriga vermelha", os quais migravam no inverno para os juncos a beira-mar e no verão faziam o caminho inverso pelas ardentes dunas de areia.

 

Durante o final da década de 90, um dos administradores do camping era professor  na área de zoobotânica na faculdade particular da PUC de Porto Alegre, tendo pesquisado exaustivamente naquela área o tal de “sapos de barriga vermelha”, porem acreditamos que não tenha obtido sucesso. A razão era simples: o camping destruiu com todo o frágil ecossistema da beira-mar.

 

Desapareceram também as corujas e os pássaros que ali faziam o seu habitat natural, inclusive as cobras que eram vistas a todo o momento por entre as barracas e equipamentos e mortas pelos campistas ou funcionários.

 

Da mesma forma, os famosos pequenos roedores, denominados vulgarmente de “tuc-tuc” ou priás, sumiram por completo, pois os campistas irresponsavelmente traziam juntos nos seus veraneios, cachorros de estimação, os quais os caçavam impiedosamente por instinto natural.